“E Não É Que Eu Ouvi?” – Livro infantil faz sucesso ao criar uma personagem com deficiência auditiva para que crianças surdas possam se identificar

O livro infantil "E Não É Que Eu Ouvi?"  conta a história de Lalá,  uma menina que perde sua audição durante o sono, mas, apesar disso,  não desiste e sai em busca do som mais lindo do mundo : o som do pôr do sol.

A obra foi escrita pela publicitária Lak Lobato em parceria com o designer Eduardo Suarez (que também fez as ilustrações) e foi inspirada na história da autora, que perdeu sua audição aos 9 anos de idade e depois de 23 anos sem ouvir realizou a cirurgia de implante coclear. Esta tecnologia lhe devolveu a audição e lhe permitiu curtir "as poesias sonoras da vida".

A autora, que um dia simplesmente acordou sem ouvir, relata que teve que aprender a viver dentro de uma "bolha de silêncio", tanto que quando sua personagem, a Lalá, acorda surda ela recebe o diagnóstico: "numa bolha ela entrou".

Lak é a autora do blog "Desculpe, não ouvi!",  que é referencia no universo dos surdos, principalmente entre os surdos oralizados, e que deu origem e nome ao seu primeiro livro, uma biografia da autora que compila textos do seu blog. O segundo livro é uma versão infantil da história da autora, todavia numa forma mais fantasiosa. Diferente da Lak, a personagem Lalá não fica tantos anos sem ouvir, pois  coloca o implante coclear logo, permitindo que a personagem permaneça criança.

Uma questão que é levantada constantemente por nós, mães e pais de crianças com deficiência auditiva, é: Onde estão as princesas ou super heróis com próteses auditivas? É gritante a falta de livros infantis e brinquedos para nossos pequenos com algum tipo de deficiência.  Nesse contexto, a personagem Lalá foi especialmente desenvolvida para  que crianças com deficiência auditiva possam se identificar.

O livro tem feito muito sucesso entre as crianças e os profissionais que atuam na área de deficiência auditiva e também traz informações para auxiliar os pais e educadores sobre os tratamentos para a perda auditiva.

A obra "E Não É Que Eu Ouvi?” é certamente aquele livro infantil que não pode faltar nas escolas, clínicas de pediatras, otorrinos e fonoaudiólogos.

Caso tenha interesse o livro pode ser adquirido na loja virtual do blog da autora DesculpeNaoOuvi/paraCriancas.

Veja abaixo a entrevista exclusiva

da autora Lak Lobato (L.L.):

 

 

1) Quando as mães e os pais recebem o diagnóstico de surdez da criança muitos passam, assim como eu passei, por uma espécie de "luto". Você diariamente conversa com as famílias nessa situação. O que você falaria para uma família que está passando por esse luto agora?

L.L: Primeiro de tudo: se permitam chorar. Chorar é bom e alivia a dor. Não tentem se fazer de fortes e segurar o choro, porque choro contido faz mal. Mas, depois de chorarem, de lavar a alma, sequem as lágrimas e busquem informações. O medo não pode paralisar, porque a surdez não é uma sentença de morte, é uma apenas um caminho inesperado para se viver.

Informem-se sobre surdez, Libras, tecnologias auditivas. Busquem o caminho com que mais se identificarem. Conheçam outras famílias e conversem com surdos adultos. A surdez é plural e somos muitos. Ninguém precisa enfrentar esse momento sozinho.

2) O implante coclear "cura" a surdez ou é uma forma de acessibilidade para a criança surda?

L.L: Não, a surdez é uma condição, até o presente momento, incurável. Aliás, o termo cura nem é muito correto, porque não se trata de uma doença, mas uma condição sensorial. No caso, ela permanece irreversível. O que dá para fazer é oferecer audição através de tecnologias, como é o caso do implante coclear, que permite que um surdo profundo tenha acesso aos sons de forma similar aos ouvintes.

3) Eu trabalho com inclusão e acessibilidade nas escolas regulares e percebo que muitas escolas infantis ou até mesmo faculdades desconhecem tecnologias auditivas como por exemplo AASI e implante coclear. Como a escola pode ajudar a criança surda?

L.L: Sobretudo, no mundo ideal as escolas deveriam conhecer e se adaptar para as condições de cada um de seus alunos, seja surdez ou qualquer outra deficiência, inclusive atraso de linguagem, de aprendizado, de atenção, condições psicológicas, etc. Óbvio que é impossível saber tudo de antemão, mas na medida que o aluno com alguma condição específica aparece, a escola deveria aproveitar a oportunidade de aprender sobre algo que irá aplicar. No caso da surdez, seria muito bacana se as escolas tivessem informações sobre a diversidade da surdez, formas de comunicação utilizadas, recursos e ferramentas para o caso em especial. E é isso que o livro "E Não É Que Eu Ouvi?" faz: apresenta a surdez do ponto de vista da Lalá, uma criança que é usuária de tecnologias auditivas.

4) Na reabilitação auditiva da criança surda é necessário que exista uma parceria entre os pais, a fonoaudióloga e a escola. Das histórias que você conhece, como se desenvolve essa parceria? Você acha importante que o seu livro infantil seja lido nas escolas?

L.L: Acredito que a base seja a mesma sempre: informações, troca de experiências e interesse. Tanto da parte da escola como da parte das famílias. Geralmente, até aquela criança aparecer na vida dessas pessoas, poucos deles sabiam sobre deficiência. Eu mesma não sabia, até me tornar surda. E mesmo depois do meu diagnóstico, só soube que o implante coclear serviria para o meu caso décadas depois. Logo, é necessário um aprendizado coletivo. Um livro infantil, que traz uma história doce e leve, abordando deficiência auditiva de forma divertida e informativa e que qualquer pessoa de qualquer idade consegue entender, pode ser uma excelente ferramenta de aprendizado. Esse foi um dos objetivos que pensamos ao escrever o livro.

5) A personagem Lalá usa bem visível o implante coclear em cima dos cabelos. Você acha que as crianças de hoje em dia lidam melhor com a questão da surdez?

L.L: Sim!! A Lalá usa aparelho por cima do cabelo, cor de rosa bem vibrante, combinando com as roupas e sapatos. O papapá é parte dela, algo que ela usa para poder interagir melhor com o mundo ao redor. Por isso, ela não tem nenhuma razão para querer esconder, é motivo de orgulho para ela. Acho que é algo que a gente tem incentivado as crianças (e adultos) a fazerem com as próprias próteses: verem como um aliado que melhora a qualidade de vida de quem precisa usá-las.

 

Dica de inclusão:

Promova você também a inclusão do seu filho! Nós, mães e pais de criança com deficiência auditiva (seja usuário de AASI, implante coclear ou outro aparelho auditivo), precisamos divulgar a questão de inclusão e acessibilidade para as crianças surdas. Divulgue o livro na escola do seu filho,  na escola do primo da criança com deficiência, nas reuniões de família e outros lugares que você achar importante.

Você que é adulto com deficiência auditiva, amigo ou parente de alguém que possua essa deficiência ou simpatizante com a causa também pode ajudar! Divulgue!

O preconceito é uma das consequências da falta de conhecimento sobre um determinado tema.  Por isso é muito importante divulgarmos informações sobre inclusão e acessibilidade das crianças com deficiência auditiva (e todas as outras) visando cessar o preconceito e a discriminação.

Fonte: Imagens DesculpeNãoOuvi

 

Ainda não há nenhum comentário.

Deixe um comentário